A História do Bonsai no Brasil

O texto abaixo é de autoria de Chuji Takeguma e foi publicado originalmente em japonês no “The Contemporary Bonsai”, No 7, de 1990 e traduzido para o português por Midori Machi.

“São poucas as referências sobre bonsai antigos no Brasil. As que existem estão em jornais e revistas agrícolas em língua japonesa. Uma garimpagem nesses textos resultaria numa bela obra sobre a história dessa arte no Brasil.

Conforme artigo publicado em japonês na revista Burajiru no Nogyô (Agricultura Brasileira), edição comemorativa dos 20 anos da Colônia Itacoloni (Promissão-SP), impresso em setembro de 1938, os bonsaistas históricos do Brasil foram Hadano de Bragança-SP, Miyoshi de São Paulo, Seto, Katsuki e Nita de Guaiçara-SP. Cada um deles a sua maneira fez várias experiências estudando a aclimatação de plantas cujas sementes vieram do Japão. Na década de 1930, a pequena cidade de Guaiçara produziu tantas plantas orientais que tornou-se conhecida mais tarde com o slogan de “Berço das plantas”. Grande parte de plantas de origem asiática hoje existente no Brasil, como por exemplo: pinheiro japonês (akamatsu e kuromatsu), junipero, acer, azaléia, ardísia, piracanta, marlus, glicínia e cerejeira ornamental foram produzidos inicialmente em Guaiçara e espalhados pelo País, através de trens puxados por máquinas à vapor, da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil.

Katsuki e Nita eram donos de chácaras de mudas de café, arvores frutíferas e plantas ornamentais. Passaram a cultivar sementes de plantas japonesas para atender o pedido de Noriyasu Seto, um fabricante de sake (vinho de arroz) e amante de bonsai. Com o passar do tempo, as duas chácaras (Nita e Katsuki) tornaram-se os maiores viveiros de bonsai do Brasil e a cidade de Guaiçara o centro irradiador dessa arte na colônia japonesa no período anterior a II Guerra Mundial.

Consta que desde 1908 quando chegou a primeira leva de imigrantes japoneses, muitas pessoas com conhecimento do cultivo de bonsai chegaram ao Brasil. Entre estes o monge budista Tomojiro Ikaragui, amigo de infância do bonsaista Noriyasu Seto, que teria trazido no navio Kasato Maru, tronco de amoreira, que seria o primeiro bonsai introduzido no Brasil, mas cujo destino ninguém sabe precisar, pois infelizmente foi confiscado pelos funcionários da alfândega juntamente com apetrechos para criação do bicho da seda. Portanto, apesar de muitos imigrantes conhecerem a arte do bonsai, não cultivavam nos primeiros tempos da imigração japonesa devido à difícil condição em que viviam como trabalhadores braçais nas lavouras de café.

Nos anos 30, com a estabilidade financeira alcançada pelos antigos imigrantes e aquisição de propriedades rurais por estes, pela primeira vez a colônia japonesa foi despertada à praticar artes de sua terra natal, entre elas o bonsai, que a partir de Guaiçara ganhava todo interior de São Paulo, cujas mudas chegaram também as mãos de Hadano (Bragança) e Miyoshi na capital, que fizeram verdadeiras obras de artes.

Goro Hashimoto foi o primeiro botânico da colônia japonesa à escreveu um livro sobre plantas brasileiras. E o primeiro bonsai com planta brasileira (bougainvillea), foi cultivado pelo jovem Tyotaro Matsui no início da década de 30, no Núcleo Aliança (hoje Guaimbê-SP). Desde 1924 quando os imigrantes japoneses entram em Primeira Aliança, para derrubar a mata-virgem e preparar o plantio da muda de café, constataram na região, a existência algumas variedades de bougainvillea. Essa plantas que os locais chamam de primavera ou três marias, logo despertou a atenção dos nipônicos, pois vista de longe, a espécie de bráctea de cor rosa lembravam o sakurá (cerejeira) em flor, provocando imensa saudade da terra natal.

Durante a derrubada da mata, Tyotaro Matsui, que aprendeu o cultivo de bonsai com Seto, foi guardando os troncos com raízes num riacho. Como na época não existiam vasos para bonsai no Brasil, o moço improvisou para seu uso, latas de querosene cortados na lateral, para os bonsai grandes e latas de marmelada para bonsai pequenos. As latas de querosene (20 litros), existiam muito na zona rural, pois a iluminação era a base de lampião de querosene. É interessante registrar que na época em Guaiçara, os vasos de bonsai de Seto, Nita e Katsuki, eram confeccionados em madeira – os vasos de cimento só apareceram nos fins dos anos 40 e início de 50.

 

TRÊS BONSAI DE TRÊS MARIAS

Com o avanço da estrada de ferro e início da colonização no norte do Paraná, Yonezo Matsui que tinha espírito de desbravador, mudou em 1937 com a família, para a Seção Yamato III, da Estação Apucarana, onde derrubou a mata virgem para plantar algodão. Seu filho Tyotaro tinha na época vários bonsai de bouganvillea (três marias ou primavera) e entre estes, três mais antigos de troncos espessos e de exuberante beleza.. Com medo das plantas não aclimatarem à nova terra, e a dificuldade em transportar na mudanças – onde ainda não existia estrada de rodagem – o moço Tyotaro presenteou Noriyassu Seto com dois de seus melhores bonsai, levando o outro para o Paraná. Comentavam na época que no norte do Paraná não existia essa planta. Mais tarde, plantada no solo, cresceu rigorosamente em terra roxa e as mudas foram espalhadas para todo Estado.

Em 1938, Noriyasu Seto enviou através do consulado do Japão em Bauru, um exemplar do bonsai de bougainvillea para o viveiro de plantas do Palácio Imperial no Japão. Seis meses depois recebeu uma carta de agradecimento do cerimonial do palácio, onde dizia que o Imperador (Hirohito) gostou muito da planta que floriu logo depois que chegou ao Japão. Como essa flor não tinha nome em japonês, sua majestade chamou-a de ikada katsurá. Assim, dos três primeiros bonsais de bouganvillea cultivadas no Brasil, só restou um no interior de São Paulo (Guaiçara).

Alguns anos depois o viveiro de bonsai de Noriyasu Seto começou a sofrer grandes ataques noturnos de formigas saúva. Em fila indiana, milhares de formigas vermelhas chegavam a desbastar completamente um bonsai em apenas uma noite. Os buracos de formiga começaram aparecer em vários pontos da chácara onde se situava a fábrica de sake e o viveiro de bonsai. O ato de colocar colheres de formicida em pó na carreira onde passavam as formigas ou em torno do buraco, não estava resolvendo. Noriyasu então despejou formicida líquido nos buracos, até esvaziar dois galões. A idéia era acabar com as formigas botando fogo uma por uma, em todos os ninhos do chão. Mal botou fogo no primeiro buraco, uma grande explosão derrubou uma velha figueira que ficava na beira da rua. Os buracos eram interligados tendo o ninho central na raiz da enorme árvore.

O estrondo foi ouvido pela cidade inteira já que Guaiçara era então uma pequena cidade. E tudo estaria bem se não fosse o fato de que em 1945 estava em andamento a Segunda Guerra Mundial. Acontece que a fábrica sake de Noriyasu Seto estava as margens da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, cujo trecho dentro do perímetro urbano era considerado “Área de Segurança Nacional”. Por esse motivo, na época, os imigrantes japoneses estavam proibidos de cruzar a estrada de ferro, chegando ao cúmulo de crianças (brasileiros descendente de japonês) que iam à escola, ter que andar vários quilômetros até sair do perímetro urbano para cruzar a linha.

O estrondo do formigueiro foi interpretado pela polícia local que os japonês estavam atacando Guaiçara para tomar a estrada de ferro. Imediatamente da estação ferroviária que ficava exato trezentos metros da figueira tombada, telegrafaram para o quartel de Lins notificando o ataque nipônico. Horas depois, num corre-corre cinematográfico a fábrica de Noriyasu estava cercado por caminhões, jipes, tanques e soldados armados até os dentes. Guaiçara que nunca teve quartel viu pela primeira vez uma operação bélica de tamanha expressão.

Apesar de Seto mal falar o português, não foi difícil fazer o comandante entender que se tratava apenas de um extermínio de formigueiros com fogo, tão comum nos pastos dos arredores da cidade. O difícil ou impossível foi ele tentar explicar ao representantes do Quartel General que cultivava árvores para fazê-las anã. Conclusão: toda família foi presa para “assegurar a tranqüilidade e o bem estar da Nação”. O comando do exército que alguns meses antes havia habilmente confiscou e transformou em quartel, a associação Japonesa de Lins e as autoridades policiais do distrito de Guaiçara, como bons cristãos entenderam que havia algo de subversivo na atitude de Noriyasu. Fizeram constar na ocorrência policial o seguinte ponto de vista: “Conforme vontade de Deus o natural é que as árvores cresçam de tamanho com o passar dos anos. Portanto, árvores que fazem o contrário, ou seja, vão diminuindo de tamanho só pode ser obra de satanás e motivo de preocupação para a segurança nacional, pois no futuro poderão fazer o mesmo com o valoroso povo brasileiro”.

A família Seto só foi solta depois que todos os bonsai foram plantados no chão. Como um guarda de quarteirão foi designado a vistoriar diariamente essas plantas, tornou-se impossível replantá-las em vasos. Noriyasu foi mandado para Casa de Detenção de São Paulo (Carandirú) e no ano seguinte (1946) para a Prisão Correcional de Ilha Anchieta, no litoral norte paulista, acusado de pertencer à organização subversiva Shindô Rennei.

O bonsai de bouganvillea, o pioneiro da espécie cultivada no Brasil, que foi plantada no chão por ordem das autoridades, cresceu como uma árvore normal, mas manteve o formato estético de bonsai, tanto pela estrutura do tronco, como pelas podas feitas pelos netos de Noriyasu (um deles Cláudio, ainda cultiva bonsai em Curitiba e foi o primeiro bonsaista brasileiro a cultivar cerejeira ornamental no Brasil). Em homenagem à essa planta o sake fabricado por Noriyassu que era denominado Hakutsuru e Hinohana, e foi obrigado a mudar de nome para “Sake Anjinho” durante a guerra, passou a chamar Sake Primavera, assim que o conflito mundial terminou. Anos depois o ex-bonsai de bouganvillea (primavera) tornou-se pela beleza, uma espécie de tração turística da pequena Guaiçara, onde até hoje está plantada.”